Tratamento do Papel para o Origami

O tema deste texto foi sugerido por Saimon Guevara Brum.

Quem gosta de dobrar diversos tipos de origami, sempre está a procura daquele papel ideal para dobrar uma figura. O que acontece várias vezes é que um certo modelo – normalmente os de nível mais complexo, mas não só eles – precisa de um papel que não é comercializado no Brasil e por isso é caro, ou de um papel que não existe. Mas Norberto, se esse papel não existe, como o criador dobrou aquele modelo?

Esta é uma ótima pergunta. E a provável resposta é que ele fabrica o próprio papel para dobrar. E se eu quero dobrar aquela figura, como é que eu faço?

Se você não quer fabricar o próprio papel, podemos fazer algumas coisas para obter aquele papel dos seus sonhos.

Tratando o Papel com Cola – Sizing Paper

A cola que normalmente é usada para o tratamento do papel é o Metilcelulose (MC) ou o Carboximetilcelulose (CMC). Essas colas são utilizadas normalmente para restauração de livros pois são livres de ácido e são solúveis em água. São vendidas em pó, mas se você for comprar, dificilmente algum vendedor vai saber o que é MC ou CMC. Mais fácil é pedir por cola de papel de parede em lojas de construção ou até mesmo como goma ou espessante nos alimentos em lojas de departamento. Antes de pagar, sempre verifique na fórmula escrita na embalagem se aquele pó é realmente MC ou CMC.

Uma das vantagens dela é que um punhado de pó consegue produzir muita cola. A receita é a seguinte:

  1. Coloque em uma vasilha cerca de 300ml de água morna.
  2. Adicione uma colher de sopa de pó de Metilcelulose ou Caboximetilcelulose na água. Misture bastante. Se ficar empelotado, não se preocupe.
  3. Deixe a mistura descansar por algumas horas. Você perceberá que as pelotas vão se dissolvendo aos poucos.
  4. Verifique a consistência da cola. Se estiver muito densa, adicione água aos poucos e vá misturando até obter a aparência da clara do ovo. Tome cuidado para a cola não ficar rala, pois adicionar mais pó não irá resolver.
  5. Deixe a mistura descansar por mais uma hora. Pronto!

Agora que você já tem a cola pronta, basta pegar um pincel largo e macio e espalhar no seu papel. Mas qual papel?

O tratamento com cola no origami é adequado em papéis de baixa gramatura. Imagine um modelo que tenha minuciosos detalhes como os origamis de insetos. O papel adequado para dobrá-los é normalmente um papel bem fino. Mas esses papéis em geral tem péssima memória nas dobras. Então, o que fazer?

Sizing! Isto é, fazer um tratamento na superfície do papel com adesivo gelatinoso – vulgo cola – que preenche os poros dando maior resistência às fibras. Ou seja, esse tratamento irá aumentar a memória das dobras nesse papel.

Pô Norberto. Não é mais fácil pegar qualquer papel e passar cola na figura depois de ter dobrado? Aí, vou colando tudo até ficar do jeito que eu quero.

Eca! Aí não é legal, não. Primeiramente, porque se eu preciso passar cola na figura depois de terminar de dobrar, significa que aquele papel não foi adequado para dobrar aquele modelo. E a busca pelo papel adequado é parte importante no processo de aprendizado do origami.

Wet Folding

Eu já expliquei como usar esta técnica no texto Vamos Fazer Origami com Wet Folding? e se você quiser exemplos, tem vários textos na categoria Wet-Folding que você pode acessar.

Esta técnica é bastante utilizada em papéis de maior gramatura. Ao umedecer o papel, a folha fica mais maleável e é possível dar formas mais orgânicas com curvas mais suaves.  Ha vários autores que exploram essa técnica ao máximo. Um deles é o origamista francês Eric Joisel, outro é o vietnamita Hoang Tien Quyet e ainda o colombiano Fabian Correa. Acesse os links e veja o que eles criaram. Verdadeiras obras de arte.

Eu gosto bastante desta técnica porque é mais artística. É mais difícil de reproduzir um modelo, pois exige-se uma prática maior no estudo do papel e do modelo a ser dobrado.

Um papel muito umedecido rasgará durante as dobras. E se estiver pouco úmido, as curvas serão mais difíceis de serem feitas e o modelo não ficará com aspecto natural. Sem falar que é necessário memorizar todos os passos do diagrama, pois sem isso, o papel poderá secar antes de se terminar o modelo. E aí, a tentativa de umedecer o papel novamente pode não ser satisfatória com diversas camadas sobrepostas decorrentes das dobras já feitas.

O modo como eu mais gosto de praticar esta técnica é tingindo o papel. Nos modelos abaixo usei um papel kraft pardo de 80g/m² e tinta acrílica fosca na cor branca diluída em água.

Pardais de Roman Diaz

Tingindo o Papel

A última vez que eu tingi papel para dobrar foi na semana passada. Estou em processo de aprimoramento constante nisso e cada vez é um pouco diferente da anterior.

O que eu fiz foi usar 2 cores – azul e preto –  no mesmo recipiente com pouquíssima água, mas não misturadas. A tinta que eu uso normalmente é a acrílica fosca solúvel em água. Não gosto de tinta acrílica brilhante pois dá uma aparência artificial no resultado final.

Usei uma esponja nova de lava-louças e toquei com a ponta nas porções de tintas dentro do recipiente. A mistura das cores foi sobre o papel, quando ia espalhando e ao mesmo tempo pressionando a esponja para soltar a água. Fiz assim para que a cor não ficasse tão uniforme e desse uma coloração que não fosse reprodutível.

Depois de cobrir um lado totalmente, esperei a tinta secar o suficiente para que não manchasse os dedos e comecei a dobrar. Como eu deveria ter um modelo bem conhecido previamente, escolhi dobrar o gato do Roman Diaz. O resultado é bem bacana, pois o modelo fica rígido na posição que dobramos depois de seco. Se quiser ver o modelo inteiro, clique na foto.

Gato de Roman Diaz

Finalizando…

Na busca pelo papel ideal, ainda existe o papel sanduíche que não é um tratamento, mas fazer o papel ter uma memória nas dobras excelente adicionando papel alumínio entre 2 folhas de papel de seda. Atualmente, para mim, esta tem sido uma técnica menos atraente e não tenho feito mais. Em comparação com o wet-folding, o resultado com o papel sanduíche é mais grosseiro.

Em relação aos tratamentos feitos após as dobras. Eu não as considero relevantes para o origami porque não tem a ver com o papel e dobras. Tem mais que ver com a pós-produção. Passar verniz, termolina ou o que quer que seja para fazer o origami durar mais tira a sua beleza.

É claro que o resultado artístico de uma peça com pós-produção pode ser mais bonita, mas no sentido estético de arte, sai dos limites do que é o origami. Ou seja, uma folha de papel e dobras.

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4 Comentários
  1. 5 outubro 2012 | Responder
  2. 5 outubro 2012 | Responder
  3. irene rodrigues
    5 outubro 2012 | Responder

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