Texto original de Robert J. Lang. Tradução feita por Norberto Kawakami com a autorização do autor.

Linhas: bordas, vincos, dobras vale e montanha

No texto Introdução e Orientações Básicas escrevi muitos dos princípios gerais que devem guiar o diagramador de origami. Eles podem ser resumidos grosseiramente como “deixe simples”, “tenha consistência” e “faça completo”. Como estes princípios serão colocados em prática é o tópico do resto desta série de textos. Nesta parte, falarei do arroz com feijão da diagramação: linhas, dobras montanha e dobras vale.

Há uma quantidade considerável de habilidade, para não dizer de arte, na diagramação. No mínimo, há estilos de diagramação claramente reconhecíveis, do mesmo modo que há diferentes estilos de dobras. Na tentativa de definir os critérios da diagramação para maximizar a clareza, devemos evitar ao máximo empregar toda nossa expressão individual neles. Nosso objetivo é a clareza, não nossos clones. Mesmo assim, uma pequena variação entre o trabalho de diferentes diagramadores é inevitável. Contudo, estas variações devem ser pontuais em estilo – traço das linhas, qualidade, variações nas proporções – e não nos símbolos básicos.

Bordas versus Vincos

Diagramadores profissionais – aqueles poucos que escrevem livros e são pagos por isso – geralmente usam 2 tipos diferentes de traços de linha para dizer o que são bordas (edges) e vincos (creases). As espessuras típicas são linhas de 1 e 1/2 ponto para bordas e vincos, respectivamente (Um ponto é uma unidade tipográfica que é 1/72 de polegada). Diagramadores profissionais conseguem isso através de canetas de uso técnico – por exemplo, canetas Rapidograph (N.T. são canetas hidrográficas que tem espessura da linha diversificada e bem definida). Eles custam em torno de $15 cada um, ocasionalmente entopem e porque são canetas ao invés de lápis, as consequências de um erro são difíceis de serem apagadas (apagadores elétricos custam algo entre $60-$100). É por isso que profissionais usam 2 tipos diferentes de espessura de linha, mas a maioria dos diagramadores não é profissional. Eles não tem acesso a ferramentas profissionais de desenho e eles não deveriam ser obrigados a usá-los para produzir diagramas legíveis. – Alguém ainda usa canetas Rapidograph? Os programas de desenho por computador dão ao usuário o completo controle sobre as linhas e não deixam manchas negras em seus dedos -. N.T. Se você está começando a desenhar seus diagramas, um bom programa de computador é o Inkscape e é gratuito!

Como Diagramar Origami: Bordas, Vincos, Dobras Vale e MontanhaMúltiplas espessuras de linha são desejáveis no desenho do diagrama, mas não são tão importantes. Podemos deixar os altos padrões ao profissional e não para o dobrador médio que quer apenas enviar seu modelo para uma convenção. O diagramador médio irá diagramar com apenas uma espessura de linha e provavelmente com um lápis ou caneta esferográfica. Diagramadores que desenham com uma espessura de linha diferenciam bordas e vincos assim: as linhas de vinco não tocam as bordas. Sempre há um espaço entre ele e a borda onde ele termina. A exceção é quando a linha do vinco vai abaixo de outra camada, só aí é que ele toca a borda (veja a figura 4).

Nos modelos mais simples, você pode desenhar todos os vincos em todos os passos do modelo, com isto ajudará o leitor a se orientar-se pelo papel. É claro que se um vinco é usado como ponto de referência, ele deve ser desenhado. A medida que os modelos vão ficando mais complexos, contudo, os desenhos podem ficar amontoados com vincos desnecessários (e naturalmente, o modelo também). Então, pelo interesse da clareza, podemos omitir vincos sem importância já que deixaram de ser úteis. Uma linha de vinco que aparece, desaparece e reaparece aleatoriamente durante a sequência de dobras gera confusão e deve ser evitado.

Dobras Vale

Como Diagramar Origami: Bordas, Vincos, Dobras Vale e MontanhaNo painel de discussão e no questionário que enviei havia uma grande variação naquilo que as pessoas diziam que era “padrão” ou modos “apropriados” de desenho das manobras de dobra. Ainda bem que quase não houve divergência naquilo que constitui uma dobra vale. Uma dobra vale é indicada através de uma linha tracejada – sem discussão alguma. Contudo, há ainda espaço para variação. A escolha é esta: uma dobra vale deve iniciar com um traço ou com um espaço?

Como pode ver na figura 5, iniciar e terminar com um traço permite uma melhor precisão na descrição da localização da dobra (que é, afinal, usualmente determinado por suas extremidades). Iniciar e terminar com um traço é especialmente importante se não há um ponto de  referência claro para a dobra (como eu propositalmente fiz na figura). Há uma outra razão para seguir esta convenção: se uma dobra vale não alcança a borda, isto indicará sem ambiguidade  que é um vinco incompleto (como acontece na modelagem e dobras prévias (precreases)). Contudo, se você usa uma fita com tracejado predefinido, é possível que na extremidade final não haja um traço e aí, não há nada o que se possa fazer.

(O mesmo acontece com a maioria dos programas de computador, inclusive com aquele que usei para fazer as figuras deste texto. O método que usei para conseguir que as linhas da figura 5 iniciasse e terminassem com um traço foi tão difícil que é impraticável para o uso regular. Assim, muitas das figuras ilustrativas nesta série de textos terão apenas uma das extremidades com o traço). – e 10 anos depois do 1º diagrama computadorizado, ainda não é possível iniciar e terminar um tracejado com o traço -.

Mas definir a linha tracejada para a dobra vale é apenas metade da estória para a difusão da dobra. A outra metade é a seta. A importância da seta na comunicação com o leitor não deve ser subestimada. Isto é especialmente verdadeiro em desenhos para o iniciante. Os iniciantes abordam as dobras por diagrama de forma diferente daqueles que já são experientes nesta arte. Como Diagramar Origami: Bordas, Vincos, Dobras Vale e MontanhaO dobrador experiente olhará a figura com uma linha tracejada e através dele pensará “Ah… tenho que fazer uma dobra que vai do ponto A até o ponto B”. Ou seja, o dobrador experiente pensará em termos de onde a dobra deve ir. Pouquíssimos iniciantes abordam as dobras desta forma. Ao invés de se concentrar onde a dobra deve estar, o iniciante quer levar um ponto do papel a outro e deixar a dobra ir onde ela for. Nesta abordagem, a localização real da dobra não é muito importante. Assim, você deve usar uma seta para indicar claramente o movimento que o papel executará.

Como Diagramar Origami: Bordas, Vincos, Dobras Vale e MontanhaQual seta devemos usar para uma dobra vale? Há uma grande variedade de setas nos livros: uma amostra é apresentada aqui (figura 6). Se vamos nos fixar ao Yoshizawa, deveria ser uma seta de ponta bipartida e cheia. Por ser inconfundível, eu prefiro a seta de ponta partida simetrica usada por Randlett e Montroll. No entanto, a forma exata não é crucial. É parte do estilo. O que é crucial é que ela seja simétrica e pode ser tanto aberta (como a de Randlett) ou cheia (como a de Yoshizawa), mas nunca vazia. Isto é para diferenciá-la das setas de dobra montanha e de outras que falarei adiante.

Na maioria dos textos, setas que indicam movimento do papel tem uma haste que é uma linha simples, enquanto setas que indicam uma ação a ser aplicada ao papel (por exemplo, pressão, preenchimento, etc.) tem uma haste vazia (figura 7). Este é um bom critério a ser seguido.

Como Diagramar Origami: Bordas, Vincos, Dobras Vale e MontanhaAdicionalmente, uma seta que indica movimento do papel não deve ter sua cauda partida (figura 8). De fato, não deveria ter nenhuma cauda extra (como adição à haste da seta). A cauda da seta de movimento é com frequência tão importante quanto a ponta. Enquanto a ponta pode indicar que o papel seja puxado em sua direção ou afastado de você (através de sua simetria ou assimetria), a cauda indica precisamente o ponto de referência ou local que sofrerá o movimento. Se você deve levar o ponto A até o ponto B, a cauda da seta toca o ponto A e a ponta toca o ponto B. Usar uma cauda partida reduz a precisão no desenho e não adiciona nada a ele.

Se há 2 pontos de referência que devem se mover para se unir, a cauda da seta toca um deles enquanto que a ponta toca o outro (pequenos espaços podem ser introduzidos para diferenciar a seta através do papel). Se não há ponto de referência, então a cauda deve tocar o “centro de massa” da parte móvel e a ponta tocar a região onde ela deve chegar.Como Diagramar Origami: Bordas, Vincos, Dobras Vale e Montanha

Quase sempre, a aba, que está sob movimento numa dobra vale, se move para fora do plano da página. Para indicar este movimento, a trajetória da seta deve ser curva. Ela deve ao menos representar o caminho ao qual o papel deve se mover. Tipicamente, uma trajetória é um arco de circunferência ou uma seção de elipse para sugerir um movimento circular de uma aba em rotação.

Quando apenas uma aba de muitas é para ser dobrada, a cauda da seta deve abranger a aba móvel ou abas móveis para diferenciá-las das restantes. Ainda que John Montroll tenha desenvolvido uma seta especial para indicar onde as camadas devam ser movidas, elas tem uma grande desvantagem: só podem ser facilmente produzidas por computador ou por padrões meio-tom de Zip-A-Tone. O que é impraticável pela maioria dos diagramadores. De qualquer maneira, ainda não vi uma situação em que uma seta que abrange não resolva. A situação difícil para ilustrar claramente é onde há camadas demais num passo para desenhá-los todos e ainda manter a clareza (por exemplo, se 4 das 8 camadas se movem). Neste caso um esquema de visão lateral com uma seta que abrange pode ilustrar claramente sem piorar o desenho (figura 9). Tal esquema de visão lateral já é amplamente usado nas ilustrações de frisos (crimps) e plissados (pleats) e é uma simples e intuitiva extensão para adaptá-los a este propósito.

Como Diagramar Origami: Bordas, Vincos, Dobras Vale e MontanhaUma complicação pode surgir onde uma pequena porção do vinco é visível e não há espaço suficiente para mais que um traço ou ponto. Neste caso, para assegurar que a dobra vale seja visível e reconhecida, é comum extender a linha da dobra bem além da borda do papel para acentuar a sua presença (figura 10).

Como pode perceber, mesmo uma coisa simples como uma dobra vale pode ser desenhada de diversas formas, algumas mais claras que outras. Se você concordar com o uso descrito acima, pode-se assegurar da clareza e consistência com os esforços do passado.

Dobras Montanha

Muito do que foi dito sobre as dobras vale se aplicam igualmente às dobras montanha. Contudo, há certa discordância do que constitui a linha dessa dobra. A mais antiga controvérsia no origami é: você deve usar 1 ponto por traço ou 2? Yoshizawa e Randlett usam 2. Harbin usa 1. Eu já usei ambos. No questionário que enviei, 2 era um pouco mais popular que 1. Talvez eu esteja evitando a questão, mas eu realmente não vejo a necessidade de definirmos se é 1 ou 2. (Contudo, definitivamente é um não para 3). Eu nunca encontrei quem estivesse habituado com um deles e se confundisse com o outro (“Ooops, pensei que era uma dobra montanha, mas não pode ser – tem apenas um ponto por traço”). Então use aquele que você quiser.

Contudo, sobre a seta há um acordo definido (mais do que com a que vai na dobra vale). Uma seta associada com uma dobra montanha tem a ponta vazia e pela metade (as figuras 9 e 10 mostram exemplos). Deveriam ser usados sempre que o papel se afasta do leitor e para acentuar este movimento, a ponta da seta deve estar um pouco abaixo da aba que se move se este é o movimento adequado do papel. Assim como nas dobras vale, abranger a seta em torno das camadas pode eliminar ambiguidades sobre o que se passa por lá.

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Introdução e Orientações Básicas

• Bordas, Vincos, Dobras Vale e Montanha

Setas e Indicações

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