Texto original de Robert J. Lang. Tradução feita por Norberto Kawakami com a autorização do autor.

Estes textos foram escritos entre 1989-1991. Apesar das várias mudanças no mundo do origami nas décadas seguintes, as recomendações ainda são válidas.

O Origami é um fenômeno internacional que se moveu para além das fronteiras tradicionais do Japão e Espanha. Seus praticantes estão espalhados pelo mundo todo e a linguagem de comunicação entre eles é através do diagrama. A grande força desta linguagem é a sua uniformidade pelo mundo. Nestes textos, baseados na Convenção de 88 e num questionário enviado aos diagramadores em várias regiões do mundo, eu reconheço a existência de padrões na diagramação e proponho alguns novos para promover ainda mais a comunicação mundial desta arte.

Introdução

Uma das dificuldades que um diagramador encara é manter a consistência entre  o passado, seu grupo local de origamistas, o cenário nacional e seus potenciais co-autores. No caso do The Friends – antigamente denominado The Friends of The Origami Center of America e atualmente conhecido como OrigamiUSA – há também a questão da consistência com o que já foi publicado nos programas de convenções, aulas e artigos do Friends’ Newsletter (tais como a série de artigos de David Shall). Pequenas diferenças surgem, por exemplo, na lista de símbolos impressa no Friends’ Newsletter #27 (outono de 87) e no programa da Convenção Anual de 88 (primavera de 88). Quando você vê os livros, a situação se complica ainda mais. Eu escrevi e estou diagramando para 3 diferentes livros, 2 deles com co-autores. Devido a cada um de nós termos fortes opiniões sobre quais símbolos são melhores, firmo compromisso com cada um deles e acabo usando um grupo diferente de símbolos para cada projeto. Tão confuso quanto o é para um diagramador, o é para o leitor. Isso se não for pior. – os 3 livros seguintes foram trabalhos solo e pude padronizá-los pelos símbolos descritos aqui, bem como o fizeram grande parte da comunidade de origamistas diagramadores.

Antes da Convenção de 88, muitos dobradores reconheceram que havia a necessidade de padronização e o The Friends tomou os passos para esse fim, por exemplo, publicando a lista de símbolos mencionada. Antes da convenção, enviei um questionário a 25 origamistas espalhados pelo mundo; muitos não só me retornaram o questinário, mas também me enviaram diversas páginas com comentários adicionais. Na própria convenção mantivemos um painel de discussão acerca da uniformidade que incluiu não só origamistas dos Estados Unidos mas também origamistas do exterior. Os resultados de ambas foram inclusos nos textos que seguem.

Este texto dá o pontapé inicial a uma série que tomará um olhar detalhado sobre os símbolos de diagramação e suas convenções. Com isto, espero resolver as questões onde há reinvidicações concorrentes. Onde há lacunas, espero preenchê-las. Também quero dar explicação do porque utilizar determinado símbolo. Esta série terá duração tão longa quanto necessária para cobrir todos os seus aspectos e caso você tenha uma grave discordância com o que seja apresentado aqui, envie-me uma carta que a discutiremos numa edição futura.

Seria agradável iniciar por algo simples, como a dobra vale (valley fold). Entretanto irei iniciar com algo mais simples que isto. Muitos dos comentários que recebi sobre os símbolos fazem referência a coisas mais gerais que a coisas específicas; elas tomaram a forma de princípios básicos a serem seguidos quando diagramamos um modelo. Comecemos por esses princípios. As ideias seguintes eliminarão muitos dos problemas que levaram os leitores a arrancarem seus cabelos e podem nos ajudar a resolver problemas futuros sobre a exatidão na diagramação quando surgirem.

Seja consistente com o passado

O modo como as coisas foram feitas no passado tem uma grande razão de ser: é sabido que funciona e é conhecido por muitos. Na diagramação em origami,  isto significa que a menos que haja uma razão urgente, devemos usar a notação padrão desenvolvida por Yoshizawa. Para apreciarmos totalmente a mudança que seus símbolos fizeram ao mundo das dobras, temos que examinar os antigos livros japoneses com seus traços e P’s ou os modernos livros alemães sem nenhuma seta e nenhuma diferenciação entre as dobras vale e montanha. A notação de Yoshizawa é limpa, permaneceu ao teste do tempo e portanto deve ser a primeira fonte do diagramador  (o que são estes símbolos, iremos ver posteriormente – agora são só os princípios básicos).

Entretanto, Yoshizawa não é a última autoridade, já que ele não diagramou modelos complexos e portanto seus símbolos são de alguma forma limitados. Muitos dos símbolos novos e a maioria dos controversos foram desenvolvidos mais recentemente para descrever sequências que não são facilmente descritas pelos símbolos padrão. Pode ser sem sentido para o diagramador, quando confrontado com uma sequência completamente nova, tentar comprimi-lo nos símbolos já existentes. E provavelmente será igualmente desconfortável para o leitor segui-lo. Contudo,  outros autores se adiantaram em preencher as lacunas dos símbolos de origami. No Ocidente, os livros de Harbin, Randlett, Sakoda, Kenneway, Montroll, Weiss e Jackson já descrevem uma imensidão de sequências. Muitos desses livros estão, infelizmente, fora de catálogo, mas ainda são usados por diversos dobradores como referência. Aqueles que estão fora de catálogo podem ser encontrados nas bibliotecas das grandes sociedades de origami e os modelos que estão neles continuam ressurgindo em periódicos e publicações dessas sociedades de forma que são ainda acessíveis. Consequentemente, se Yoshizawa não tem um símbolo para a dobra, é bem provável que alguém deles a tenha.

Isto não significa que nunca se poderá substituir um símbolo antigo por um novo – mesmo porque em pouquíssimos casos, é exatamente isso que eu sugiro – mas se o fizer, é melhor que tenha uma razão esmagadoramente boa para fazê-lo. Por exemplo, no painel de discussão foi sugerido que o traço-ponto-ponto-traço para a dobra montanha fosse substituído para ponto e traço porque eram mais fáceis para o leitor distingui-los. Mesmo que fosse assim (e eu não estou dizendo que não é),  traço-ponto-ponto-traço está tão firmemente arraigado nas mentes dos dobradores que fazer tal mudança traria uma confusão em massa para quem já está familiarizado com a arte. Dessa forma, traço-ponto-ponto-traço ainda se mantem – entretanto para padrões de dobras (crease pattern ou cp)  grandes como aparecem nos desafios cp da Origami Tanteidan Magazine, traço e ponto-traço se ofuscam ficando incompreenssíveis e o uso de linhas de cores contrastantes se torna uma ferramenta mais útil. Lembrando-nos que a história e a convenção nunca devem ficar no caminho da clareza -. Por outro lado, a “seta de repetição” de Harbin é bem menos estabelecida. Ela é evitada por diversos autores proeminentes (Randlett, Weiss/Jackson, Montroll), tem diversas deficiências e irei sugerir uma substituição posteriormente.

O que eu fiz aqui foi coletar das várias fontes, convenções de símbolos e desenhos que são gerais, claros e consistentes com o passado. Eu gostaria de pensar que os símbolos nesta série pudessem descrever qualquer situação que eventualmente surgisse, mas não sou ingênuo assim. O origami está se desenvolvendo tecnicamente numa taxa crescente e a arte provavelmente irá ultrapassar as capacidades de qualquer linguagem descritiva. Algum dia, um novo procedimento irá surgir que não possa ser facilmente diagramada usando a notação padrão. Contudo, se você está diagramando um passo, você deveria primeiramente tentar usar os símbolos apresentados aqui; e somente se for impossível ou injustificadamente difícil, deve tentar criar novos. E mesmo assim, tenha sempre em mente a simplicidade, generalidade e clareza.

Faça as figuras falarem por si

A meta da comunicação internacional do origami só pode ser alcançada se qualquer um puder ler as instruções. Assim, um grupo de desenhos não pode depender da linguagem. As figuras devem indicar toda informação relevante. Instruções verbais não devem ser necessárias para resolver ambiguidades. N.T. Para mim, esta é a orientação mais importante de todas.

Faça o texto falar por si, se possível

Já que muitas pessoas trabalham melhor através de descrições verbais ao invés de diagramas, o diagramador deveria, se possível, incluir instruções verbais auto-suficientes que funcionassem por todo o modelo. Contudo, isto é quase impossível de ser atingido em modelos complexos. As construções verbais necessárias para simplesmente navegar em torno do modelo se tornariam assustadoras e é plenamente impossível descrever apenas com palavras um passo na qual deve trazer juntas 20 ou 30 dobras (como acontece frequentemente nos modelos que usam a técnica do box-pleating – N.T. não traduzi aqui porque dizer técnica plissados-em-caixa mais confunde que ajuda). Nestes casos, as instruções verbais ainda podem melhorar a clareza dos desenhos mas seria praticamente impossível empenhar-se por completa auto-suficiência. Em geral, no entanto, os iniciantes dependem mais das palavras que os dobradores experientes, então é mais importante ter as palavras corretas nas dobras fáceis que nas difíceis.

Use letras para apontar aspectos importantes

É surpreendente notar a quantidade de simplificação que pode advir simplesmente por colocar uma letra no desenho para indicar um ponto ou aba. Compare “Dobre a grande ponta arredondada perto do ponto a esquerda da linha central do modelo até o ponto onde a dobra que fizemos no passo 4 cruza com a dobra orelha de coelho debaixo do lóbulo direito na grande e irregular parte do modelo” com “Dobre a aba A até o ponto C”. Em modelos simples, o iniciante tem a tendência de seguir apenas as palavras e não olhar para as figuras exceto quando for seu último recurso. A ocorrência ocasional para uma letra em uma figura tem o efeito auxiliar de recordar a essa pessoa que olhe o que o desenho está indicando.

Seja gramaticalmente correto

Esforçar-se pela clareza e pela descrição verbal inequívoca significa, entre outras coisas, que você deve se manter na gramática do origami. É bem estabelecido nos livros de origami em inglês (ex. os livros de Harbin/Randlett) que os substantivos do origami não levam hífen, mas verbos levam. (N.T. na tradução, esse tipo de regra perde totalmente o sentido, já que os verbos em português se flexionam com o sujeito. Assim deixarei a frase em inglês para vocês entenderem o que o autor quis dizer. Thus, I reverse-fold the flap into the interior, but I flatten out the reverse fold. Is that a double rabbit ear? It was, but I triple-petal-folded it a few minutes ago.) Assim, eu dobro invertido a aba para o interior, mas eu achato a dobra invertida. Isto é uma orelha de coelho dupla? Era, mas eu fiz uma tripla dobra da pétala nela há alguns minutos.

De mesma forma, enquanto os nomes dos diferentes movimentos são substantivos e devem ser escritos em minúsculas, aqueles que incorporam nomes como estirada Elias (Elias stretch ou Elias-stretch), devem manter o nome em maiúscula. Os nomes das bases são nomes próprios, portanto ter suas iniciais em maiúsculas: Base do Pássaro, Base Bomba d’Água, Base Preliminar (Ok. Dobra Preliminar). Escrever o nome do modelo com a inicial em maiúscula é sua escolha. Se for apenas uma descrição (“Isto é um urso”) deve estar em minúsculas. Se for um título (“Homem Pedalando um Monociclo ao Crepúsculo”) provavelmente deveria manter as letras iniciais maiúsculas.

Use setas para indicar movimento

Como Diagramar Origami: Introdução e Orientações BásicasSetas devem ser usadas apenas para indicar movimento ou ação: movimento de uma aba, pressione aqui, achate ali, empurre isto, etc. Especificamente, não deve ser usado para apontar uma característica particular ou transmitir uma informação factual (veja a figura 1). Nos livros de origami antigos (ex. Origami Dokuhon) há um tipo diferente de indicador que é chamado de guia e consiste numa linha bem fina que vai da informação ao desenho. Os guias são amplamente usados nos desenhos mecânicos. Eles também deveriam ser usados no origami.

Não deixe o leitor boiando

Uma das maiores crueldades que um diagramador pode cometer ao leitor é ilustrado no cenário a seguir. No passo 113 somos instruídos a fazer uma complicada série de afundamentos fechados (closed sinks) e virar o modelo para o outro lado. No passo 114, portanto, mostra o lado oposto do modelo. O papel não volta para aquele lado senão apenas no passo 243, momento esse que descobrimos que dobramos o passo 113 totalmente errado, mas agora já é tarde demais. Sempre mostre o resultado de qualquer procedimento imediatamente.

Como Diagramar Origami: Introdução e Orientações BásicasEste parece um cenário fácil de ser evitado, mas há realmente um motivo para que ele aconteça a todo instante. Desenhar diagramas é um trabalho árduo e tedioso e parece um desperdício de tempo desenhar um passo onde nada acontece. O diagramador tem que entender, no entanto, que sua meta é facilitar as coisas para o leitor e não para si mesmo (por mais doloroso que isso possa ser) – nos dias em que se usava caneta e tinta, a tendência dos diagramadores era de se pouparem se seus desenhos fossem inteligíveis (o que não é necessariamente perdoável); mas quando a duplicação e modificação está ao alcance de alguns cliques do mouse, realmente não há nenhuma desculpa para não mostrar o resultado em todos os passos.

Mostre um passo por desenho

Pela mesma razão, é comum amontoar vários passos no mesmo desenho quanto forem possíveis. Isto não só é confuso para o novato, mas também não é o modo como alguém dobra um modelo. Suponha que você esteja dobrando um animal com 4 patas e uma cabeça. Você não faz uma dobra nas patas dianteiras, uma nas patas traseiras, uma na cabeça, outra nas dianteiras, outra nas traseiras, outra na cabeça, uma terceira nas dianteiras, uma terceira nas traseiras, uma terceira na cabeça e assim por diante. O modo como a maioria das pessoas dobraria o animal é completando as dobras das patas dianteiras, depois completando as das patas traseiras e só então dar atenção à cabeça (ou numa outra ordem qualquer). Se as pessoas não dobram numa determinada ordem, não se deveria diagramar nessa ordem. A única razão para amontoar vários procedimentos num único passo é diminuir a quantidade de desenhos, mas novamente, este é o caso em que o diagramador se coloca numa posição superior ao leitor e não é como as coisas deveriam ser.

Distorça o modelo para maior clareza

Como Diagramar Origami: Introdução e Orientações BásicasSe um diagramador desenhar um modelo de modo matematicamente ideal, irá transmitir pouquíssima informação: todas as bordas estariam alinhadas, todas os vincos iriam de uma ponta a outra, todas as camadas estariam perfeitamente sobrepostas. Na prática, o diagramador precisa introduzir pequenas distorções: lacunas entre as bordas, camadas que não se alinham. Tais distorções transmitem muito mais informação e deveriam ser incluídas onde quer que sejam apropriadas (também são difíceis de desenhar, é claro).

Na mesma linha de pensamento…

Mostre múltiplas camadas onde for possível

Aqui é onde muitos dos diagramadores falham no serviço: se o modelo tem múltiplas bordas empilhadas entre si, MOSTRE as múltiplas bordas. Se há bordas demais, você não precisa mostrar todas elas, mas ao menos mostre algo suficiente para indicar que não há apenas uma camada ali. Isto é muito mais esclarecedor ao leitor que manter a silhueta matematicamente exata do modelo.

E agora, tendo estabelecido estas ideias básicas, vamos para os símbolos.

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