Texto original de Robert J. Lang. Tradução feita por Norberto Kawakami com a autorização do autor.

Aqui vamos nós outra vez: repetições

Origamistas normalmente são bem calmos e tolerantes. Você usa duas folhas de papel? Não é problema. Alguns cortes aqui e ali? Nem se preocupe. Fita adesiva e cola? Nem ligue. Você quer que o dobrador faça a mesma coisa do outro lado do papel? ATENÇÃO! Mesmo o mais genial diagramador fica raivoso quando inicia o uso de um símbolo para indicar esta ação; estou falando, é claro, do (abominável) famoso – N.T. o trocadilho (in)famous em inglês não teve tradução – símbolo de Robert Harbin. Aquele consiste numa pequena seta com a ponta bem aberta e uma ou mais linhas que cruzam a haste. O número de linhas que cruzam indica em quantas abas a ação deve se repetir. Foi usado no livro “Secrets of Origami” e amplamente adotado pelos diagramadores britânicos.

Algo neste símbolo traz fortes emoções aos dobradores. Na minha pesquisa sobre diagramação, li expressões que variavam de “insubstituível” a “abominação redundante”. Ele é realmente necessário?

A resposta imediata é, não. Contudo a situação não é tão simples quanto parece. Certamente, as palavras “repita do outro lado” podem transmitir o mesmo que uma seta, mas uma das metas da padronização da diagramação é reduzir a dependência das instruções verbais – idealmente, as instruções verbais e diagramas devem se bastar sozinhas. Se o nosso objetivo é transmitir de forma inconfundível uma sequência de dobras com símbolos apenas, então algum símbolo é definitivamente necessário.

(Na verdade, você pode virar o papel para o outro lado e repetir a mesma sequência de desenhos, mas com modelos complicados e simétricos, esse tipo de abordagem pode inflar a sequência de dobras por um fator de 5 ou mais).

Ainda, a seta de repetição que Harbin criou sofre de diversas deficiências. A primeira, embora menor, é que para manter a coerência não deveria ter ponta alguma, já que não indica movimento. Para ser coerente com os origamis anteriores (veja o texto Introdução e Orientações Básicas), a informação acerca da região do papel deve ser dada por um guia ao invés da seta (figura 23).

Este ainda não é um ótimo símbolo, contudo. Mas é melhor que o uso das palavras “repeat here“, pois este exige que o leitor saiba um pouco do idioma Inglês e isto é contra o argumento de que os diagramas devam ser independentes da linguagem.

Mais significativamente, a seta básica de repetição nem sempre transmite informação suficiente sobre a ação a ser repetida. Por exemplo, a figura 24 mostra duas possibilidades de interpretação de uma sequência repetitiva. A figura 24a repete toda a sequência; a figura 24b repete parte dela. Normalmente, a figura 24a é considerada a interpretação correta, mas há algumas situações que o diagramador deseja transmitir a situação da figura 24b. Algum meio para diferenciá-las deve existir.

Enquanto modificamos a seta de repetição para eliminarmos sua ponta, podemos unir um retângulo na haste que contém a série de passos a serem repetidos (figura 25a). Isto certamente diz ao leitor o que repetir e é inteligível inclusive para leitores que não entendem inglês (algarismos arábicos são utilizados até nos livros japoneses).

O método de aninhar linhas que cruzam a haste é um método simples de mostrar quantas vezes se repete a sequência, mas começa a desmoronar com mais de 4 ou 5 abas. Imagine-se um individuo que gosta de dar o comando “repita isto 25 vezes”. Desenhar 25 linhas na haste do guia deve ser um pouco apertado. Ao invés disso, essa informação pode ser adicionada no retângulo. Então “repetir os passos 23-145 25 vezes a direita” pode ser indicado por “23-145 x25” no retângulo como mostra a figura 25b.

Uma vez que se inicia a repetir sequências inteiras de passos nas abas individuais, torna-se possível empilhar uma extraordinária quantidade de instruções em um único passo. Como exemplo, considere a seguir que é um trecho de um passo das instruções verbais de uma publicação recente:

Ao continuar estreitando, desfaça cada uma das dobras assim que as fizer. Uma vez que todos os vincos tenham sido feitos, coloque as dobras de volta no lugar. Repita os passos 14 e 15 no lado esquerdo do modelo. Na próxima aba, repita o passo 16. Use os 2 procedimentos de estreitamento alternadamente por todo o percurso até a outra extremidade do papel. Quando alcançar a face oposta, repita o passo 12. Quando tiver terminado, o modelo estará totalmente simétrico. Dito tudo, você fará os passos 14 e 15, 8 vezes, o passo 16, 6 vezes e o passo 12, 2 vezes. N.T. Cansei só de imaginar como seria… no original não está em itálico.

Agora isto é muita dobra. Deixo como exercício ao leitor imaginar como seria a combinação de guias, retângulos e linhas que cruzam a haste para indicar tal passo. – Crédito extra: encontre o modelo e o passo a que estou me referindo.

Fazendo pressão: dobra invertida por dentro

Há na realidade 2 procedimentos diferentes que estão dentro da categoria de dobras invertidas (reverse folds): dobras invertidas por dentro (inside reverse folds) e dobras invertidas por fora (outside reverse folds). A dobra invertida é um método para alterar a direção da aba que é mais estável que uma dobra vale ou montanha e como a aba deve ser desdobrada um pouco para incorporar a dobra invertida, é de alguma forma mais resistente.

A dobra invertida por dentro foi citada com uma grande variação por meus correspondentes do questionário sobre a diagramação. Dos 12 primeiros, não houve nenhum que mostrou a mesma combinação de símbolos e setas. A figura 26 mostra todas as diferentes setas, linhas e símbolos que eu recebi.

Então a pergunta é: quais deles precisamos e quais podemos dispensar? Sem falar que é necessário mostrar a dobra montanha da camada de papel mais próxima e se possível, mostrar a borda oposta e sua dobra vale (que pode se extender para além da borda para garantir a clareza). Contudo, ao menos mais um símbolo deve ser usado. Primeiro, uma seta deve ser usada para indicar movimento da aba (como está nas figuras 26e e g-i). Em acréscimo, é útil mostrar uma seta indicativa de força a ser aplicada pelo dobrador (como mostram as figuras 26a-c).

A seta da direita é uma de movimento, necessitando de uma seta de dobra vale ou montanha. Agora, normalmente, uma seta de dobra vale é usada para indicar que o papel se move em sua direção e uma seta de dobra montanha é usada quando o papel se afasta de você. Mas numa dobra invertida, o papel não se move nem em sua direção, nem se afasta. Essencialmente, ela se move lateralmente. A convenção aceita nesta situação é usar a seta da dobra vale (como em 26g e 26h). Das duas, 26h, com parte da haste em linha raios-x quando cruza a borda do papel, é mais clara porque mostra plenamente que a parte interna do papel se move para fora da aba. Contudo, a seta de dobra vale completa, 26g, é também muito usada e é mais fácil de ser desenhada. Entretanto, é importante dizer que se 26g for usada, a haste da seta nunca deve cruzar a borda do papel (como aconteceria numa dobra vale).

É também útil usar uma seta que indica a ação de empurrar. Yoshizawa e Randlett (e outros autores também) usam uma seta vazia de cauda partida (parecida com a 26b que é a versão de Montroll) para indicar a aplicação de pressão. E na prática, quando aponta para uma borda dobrada, significa que esta borda tem que ser invertida. Esta interpretação elimina a necessidade de uma dobra vale percorrendo a coluna da dobra (26d), além de ser imprecisa.

Outras variações: Montrol também usa uma seta sombreada (26f) para indicar que onde dentre as camadas deve ser afastada para formar a dobra invertida. Contudo, uma seta de movimento, se corretamente desenhada, já carrega essa informação. Harbin definiu uma nova seta (na realidade, uma ponta) para informar uma dobra de afundamento (sink fold), então usada ingenuamente para indicar dobra de inversão. Esta notação é sem precedentes e deve ser evitada.

Resumindo: uma forma adequada, consistente e suficiente de mostrar uma dobra invertida por dentro é apresentada na figura 27a (a linha raios-x é opcional). Sempre mostre a dobra montanha na camada mais próxima e se possível mostre a dobra vale na camada mais afastada do papel. Use uma seta vazia e de cauda partida para indicar “pressione aqui”. Use uma seta de dobra vale para indicar o movimento da aba. E de preferência extenda a haste da seta para além da borda com uma linha raios-x.

Esta notação é clara e suficiente para dobras invertidas por dentro simples, mas pode ainda ter problemas quando uma aba tem que ser dobrada entre diversas camadas. Se existem 8 camadas do lado aberto, em qual deles que a dobra de inversão deve ser aplicada? Entre as camadas 2 e 3? 4 e 5? Habitualmente, o dobrador tende a organizar as camadas de forma tão simétrica quanto possível, mas o criador pode não querer isso. Se todas as camadas não podem ser visíveis, tais questões podem ser resolvidas pelo uso da visão de borda – um pequeno esquema com a disposição das camadas e localizada próxima das dobras (figura 27b). Encontraremos as visões de borda novamente quando abordarmos os frisos (crimps) e o plissados (pleats).

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